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22/3 – Santa Leia, Viúva

Nada sabemos da vida de Santa Leia antes de ela se juntar a Santa Marcela no seu convento do Aventino.

Tendo-se casado jovem, Leia ficou viúva ainda jovem e, desprezando propostas de casamento muito vantajosas, quis consagrar-se inteiramente a Deus. Concorreu para tal o facto de ter encontrado, no seio da sociedade corrompida de Roma, outra sociedade de igual nobreza, formada por viúvas e virgens pertencentes às primeiras famílias da Cidade Eterna, que levavam uma vida de piedade e boas obras sob a direcção de Santa Marcela. Era o cristianismo que, pela graça de Deus, vicejava nas mais altas classes sociais do Império.

Como surgiu esse convento do nobre bairro do Aventino, na Cidade Eterna? No ano de 382, o Imperador Teodósio – com razão chamado “o Magno” – e o Papa São Dâmaso resolveram convocar um sínodo em Roma para combater as heresias que pululavam principalmente no Oriente. Adoecendo Santo Ambrósio, que deveria ser o secretário do Sínodo, São Dâmaso nomeou São Jerónimo para o substituir. Este santo desincumbiu-se tão bem do cargo, que o Papa o nomeou depois seu secretário particular.

Um grupo de matronas e virgens romanas da mais alta aristocracia pôs-se então sob a sua direcção espiritual. Tinham sido reunidas e dirigidas por Santa Marcela, e entre elas destacam-se Santa Paula e suas filhas Paulina, Santa Estóquia, Blesilla e Rufina; Albina, Asela, Leia e outras. Foi para as acolher que Santa Marcela transformou o seu palácio do Aventino em convento.

Até essa época, nenhuma grande dama da Cidade Eterna tinha feito profissão de vida monástica; semelhante ideia era até ignominiosa e degradante aos olhos das classes mais elevadas. A primeira a fazê-lo, Santa Marcela, teve pois de desafiar todo o ambiente mundano que a cercava, sendo a primeira grande dama romana a professar abertamente a vida de devoção. Porém, sendo bela, rica, de alta linhagem, muito culta, perfeitamente ao nível de tudo o que Roma encerrava de mais refinado e erudito, ninguém se atrevia a desconsiderá-la. O mesmo ocorreu com as que a seguiram.

Tiveram assim origem as “reuniões do Aventino”, onde São Jerónimo fazia conferências sobre teologia e estudos bíblicos para as novas monjas. As aristocráticas alunas eram muito atentas aos ensinamentos de São Jerónimo, de modo que ele exclama: “O que eu via nelas de espírito, de penetração, ao mesmo tempo que de encantadora pureza e virtude, não saberei dizer!”

A notícia que temos de Santa Leia é dada pelo seu director espiritual, São Jerónimo, em carta que escreveu de Belém, na Palestina, onde vivia, a Santa Marcela, em Roma, depois da morte da primeira. Diz ele: “Quem renderá à bem-aventurada Leia os louvores que merece? Renunciou a pintar o rosto e a adornar a cabeça com pérolas brilhantes. Trocando os ricos atavios por vestido de saco, deixou de dar ordens aos outros para obedecer a todos; viveu num canto com alguns móveis; passava as noites em oração; ensinava as companheiras mais com o exemplo do que com admoestações ou discursos; esperava a chegada ao Céu para ser recompensada pelas virtudes que praticou.”

Acontece que Santa Leia faleceu ao mesmo tempo que certo cônsul romano muito popular, que levava vida bastante irregular, razão pela São Jerónimo o lança no inferno sem nenhuma cerimónia: “É lá [no Céu] que ela gozará, daqui em diante, da felicidade perfeita. Do seio de Abraão, onde está com Lázaro, olha para o nosso cônsul, outrora coberto de púrpura, e agora revestido de ignomínia, pedindo em vão uma gota de água para matar a sede. Embora ele tivesse subido ao Capitólio entre os aplausos da população, e a sua morte enchesse toda a cidade [de consternação], em vão sua mulher proclama imprudentemente que ele foi para o Céu, e que lá ocupa um grande palácio. A realidade é que foi precipitado nas trevas exteriores, ao passo que Leia, que queria passar na Terra por insensata, foi recebida na casa do Pai, no festim do Cordeiro.”

São Jerónimo termina com um conselho espiritual às suas discípulas: “Por isso vos peço, com as lágrimas nos olhos, que não procureis os favores do mundo, e que renuncieis a tudo o que é da carne. Em vão se procuraria seguir ao mesmo tempo o mundo e Jesus. Vivamos na renúncia a nós mesmos, porque o nosso corpo em breve se converterá em pó, e o resto não durará também muito tempo.”


Foto: IPCO

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