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15/6 – Santa Germana Cousin, Virgem

Na pequena igreja de Pibrac, em França, numa fria manhã de Dezembro de 1644, procedia-se ao enterro de Germana Audouane, que havia pedido em testamento para ser sepultada dentro do recinto sagrado.

Assim que retiraram do solo as primeiras lajes para lhe cavarem o túmulo, os coveiros viram um corpo enterrado quase à flor da superfície, fresco como se tivesse sido colocado na véspera. Um golpe de picareta atingira-lhe a face, deixando ver uma carne viva e um sangue brilhante.

A comoção foi grande e o acontecimento logo atraiu todo o povoado. Desenterrado o corpo, constatou-se que era de uma jovem de pouco mais de 20 anos, cujos membros ainda estavam flexíveis. As flores que a ornavam estavam apenas um pouco murchas, e a mortalha ligeiramente escurecida. No seu pescoço viam-se cicatrizes de pequenos tumores, e a sua mão direita era deformada.

Quem seria? Nem o vigário nem a maioria dos paroquianos a reconheceram. Excepto dois antigos moradores da cidade, Pierre Pailhès e Joana Salères, que a identificaram como sendo Germana Cousin, uma contemporânea sua falecida havia cerca de 40 anos e sobre quem se contavam factos maravilhosos.

Os dados sobre a vida de Santa Germana Cousin são tão escassos, que ela foi chamada “a santa sem história”, pois, como vimos, passou a ser mais conhecida após a sua morte.

Foi ali mesmo, em Pibrac, que Germana nasceu, por volta de 1579, filha de Lourenço Cousin e de Maria Laroche, uma mulher piedosa e de saúde frágil. Quase na velhice, tiveram uma filha doente, aleijada da mão direita e atacada de escrófula (infecção tuberculosa nos gânglios linfáticos do pescoço, acompanhada com frequência de abscessos de fístulas, que se desenvolvem lentamente).

Órfã muito cedo, Germana terá sido criada pelo irmão mais velho e pela mulher deste; dizem outros que só a mãe morreu e que o pai voltou a casar-se. Como a família se extinguiu na geração seguinte, os factos são difíceis de precisar. Mas, seja a madrasta ou a cunhada nas vezes da madrasta, o facto é que essa mulher desde logo desprezou aquela infeliz criança, franzina e disforme. Com medo de que sua doença se transmitisse às outras crianças da casa, afastou-a do convívio familiar, mudando-se para o estábulo e confiando-lhe a guarda do rebanho da família.

Apesar de a sua triste situação poder vir a ensejar uma revolta contra tudo e contra todos, principalmente contra Deus, Germana preferiu trilhar a escola da humilhação e do sofrimento, elevando o espírito a Deus e aceitando amorosamente o triste quinhão que lhe fora reservado. “Triste quinhão” aos olhos do mundo, pois aos olhos daquele que entregou o seu próprio Filho Unigénito à morte, e morte de cruz, esse quinhão só é reservado aos eleitos, que compreendem o valor infinito do sofrimento.

Na sua biografia da santa, François Veuillot, conhecido escritor católico do século xix, fala de duas pessoas que a ajudaram muito a compreender a própria situação e a servir-se dela para a sua santificação: uma antiga empregada da família, que dispensou à pequena órfã um amor maternal, ensinando-lhe os rudimentos da religião, e o velho pároco de Pibrac, homem verdadeiramente zeloso e santo, que via naquela criança cândida e inocente uma predileta do Céu.

Iluminada pelos dons do Divino Espírito Santo, a humilde pastorinha começou por sua vez a fazer apostolado com as outras crianças, ensinando-lhes o catecismo que aprendera; e, embora vivesse somente de pão e água, achava meio de repartir o seu alimento com os ainda mais necessitados.

Numa noite de 1601, três viajantes viram no céu uma luz luminosa e um branco cortejo de anjos, que desciam até uma casa de Pibrac e voltavam a subir, transportando a alma de uma jovem igualmente vestida de luz e coroada de flores.

Chegando ao povoado, constataram que a jovem Germana tinha morrido durante o sono e que o seu corpo fora sepultado na igreja. A sua memória caiu no olvido até 1644, quando houve uma nova intervenção da Providência, como vimos.

Após a milagrosa descoberta do corpo de Germana, para evitar a veneração pública de uma pessoa ainda não canonizada, o vigário de Pibrac colocou na sacristia a urna de chumbo que continha os seus restos mortais.

Passados 16 anos, quando fazia uma visita pastoral à cidade em nome do arcebispo, o P.e Jean Dufour, Vigário Geral da Arquidiocese de Toulouse, viu aquela urna funerária na sacristia e estranhou. Contaram-lhe então a sua história e ele quis ver o corpo, que estava inteiramente incorrupto. O vigário mostrou-lhe em seguida um registo onde estavam relatadas inúmeras curas milagrosas atribuídas a Germana; foi o início do processo diocesano, o qual levaria, quase 200 anos depois, à beatificação e canonização da humilde pastora.

Antes, porém, ela seria objecto de uma profanação e de novo milagre retumbante, por ocasião do Terror, na Revolução Francesa. Três revolucionários de Toulouse, querendo acabar com aquela “superstição”, violaram a urna na qual se encontrava o corpo de Germana, retirando-o ainda incorrupto; estavam tão endurecidos, que nem a visão desse portento os comoveu. Enterraram-no na própria sacristia, cobrindo-o com uma camada de cal viva. Dois anos depois, em 1795, foi possível desenterrar novamente o corpo. Embora a carne tivesse sido devorada pela cal, esta respeitou milagrosamente toda a ossatura, que também deveria ter desaparecido.


Foto: © José Luiz Bernardes Ribeiro

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