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18/3 – São Cirilo de Jerusalém, Confessor e Doutor da Igreja

Cirilo nasceu em Jerusalém ou arredores, no ano 315. Pouco se conhece da sua infância e juventude, a não ser que se aplicou cedo ao estudo das Sagradas Escrituras e dos escritores eclesiásticos, bem como da retórica, o que depois se reflectiria no seu magistério.

Ordenado sacerdote por São Máximo de Jerusalém, dedicou-se desde logo à catequese dos catecúmenos (neófitos que se preparavam para o baptismo). Muito versado, refutava os pagãos com as suas próprias armas, e tornava acessíveis àqueles que se preparavam para o baptismo os mais elevados mistérios da nossa fé.

As suas pregações, realizadas à porta da Basílica do Santo Sepulcro (pois os não baptizados nela não podiam ainda entrar), eram tão apreciadas, que foram sendo anotadas por compiladores anónimos. Tais notas formaram precioso conjunto, que foi publicado sob o título de Catequeses, obra que valeu ao seu autor o título de Doutor da Igreja.

O talento e a eloquência que Cirilo empregava nessa série de instruções designaram-no de maneira natural aos sufrágios do clero e do povo quando a morte de Máximo tornou vacante a sede episcopal de Jerusalém, no ano 350.

Ia começar para o novo bispo da Cidade Santa uma série de perseguições, que se prolongariam praticamente até à sua morte.

Sobreveio em Jerusalém e nas adjacências uma grande fome; milhares de pobres morriam à míngua por não terem que comer. Para sanar essa trágica situação e socorrer as suas ovelhas, Cirilo não teve outro recurso senão vender mobiliário e parte dos bens diocesanos. Essa atitude foi interpretada pelo Metropolita Acácio, Arcebispo de Cesareia, herege ariano que procurava um pretexto para o afastar de Jerusalém, como apropriação indevida dos bens eclesiásticos. Intimado pelo Arcebispo a comparecer ante um tribunal, Cirilo negou-se. Acácio reuniu então uma assembleia de bispos arianos que depôs o santo da sua sede.

Restabelecido nela no ano seguinte pelo Concílio de Selêucia (359), os bispos arianos, à força de pressões, conseguiram novamente depô-lo num Concílio em Constantinopla.

Em 361, morto o Imperador Constâncio, o seu sucessor Juliano (que ficaria tristemente famoso com o terrível cognome de Apóstata) chamou todos os bispos exilados, entre eles São Cirilo.

O novo Imperador – que era secretamente inimigo dos cristãos – começou a favorecer por todos os modos o restabelecimento do paganismo. Pareceu-lhe que, sendo os mártires semente de cristãos, não devia empregar as perseguições, mas operar uma verdadeira revolução pacífica dentro do próprio cristianismo.

Ora, uma das profecias de Nosso Senhor que se havia cumprido com a mais inexorável exactidão fora a da ruína do Templo de Jerusalém e consequente dispersão do antigo povo eleito. Anular e desmentir tal profecia seria um grande golpe assestado nos cristãos: era esse o objectivo de Juliano. Por isso, conclamou os israelitas de todo o Império a empregarem-se nessa obra.

Para começar a construção do novo Templo, foi necessário arrancar os alicerces que restavam do antigo. São Cirilo mantinha-se impávido, na convicção de que prevaleceriam as palavras de Nosso Senhor. Mostrou aos judeus que, apesar das condições mais favoráveis possíveis, eles estavam a ajudar ao cumprimento da profecia fazendo desaparecer até os vestígios do Templo primitivo, arrancando-lhe o que restava dos alicerces.

Um escritor insuspeito, porque pagão, contemporâneo dos acontecimentos, Amiano-Marcelino, narra: “Enquanto o Conde Alípio, assistente do governador da província, apressava vivamente os trabalhos, espantosos turbilhões de chamas saíram dos lugares contíguos aos fundamentos, queimaram os trabalhadores e tornaram-lhes o lugar inacessível. Enfim, persistindo esse elemento com uma espécie de teimosia a rejeitar os obreiros, foi necessário abandonar a empresa.”

O Apóstata Juliano prometeu vingar-se de Cirilo quando voltasse da guerra na Pérsia, mas antes disso foi chamado ao tribunal de Deus, onde prestou contas da sua impiedade.

Entretanto, o Imperador Valente, também favorecedor do arianismo, tornou a exilar o santo em 367. Durante 11 anos, Cirilo peregrinou de mosteiro em mosteiro, de diocese em diocese, até que, subindo ao trono o Imperador Graciano, ordenou que fossem restituídas a todos os pastores em comunhão com o Papa São Dâmaso as suas respectivas dioceses. Assim, em 378, Cirilo voltou à Cidade Santa, para não mais dela sair.

Até ao fim os inimigos do santo quiseram denegrir a sua figura – e sobretudo a sua ortodoxia –, bem como a legitimidade da sua eleição episcopal. E foi para ele uma honra e uma glória que o II Concílio Ecuménico de Constantinopla, em 382, tenha dele atestado: “Este bispo, bem-amado de Deus, foi ordenado canonicamente pelos bispos da sua província, e combateu pela fé em diversas ocasiões.”

Enfim, depois de ter, como São Paulo, “combatido o bom combate e percorrido a carreira inteira”, este heróico prelado e Doutor da Igreja rendeu a Deus tranquilamente o espírito em 386, com a idade de 70 anos.


Foto: Francesco Bartolozzi [Public domain]

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